Wilco – Yankee Hotel Foxtrot – 2002

 Wilco

Yankee Hotel Foxtrot: disco do Wilco, de 2002

Colaboração de Ricardo Pereira

Yankee Hotel Foxtrot é um álbum sobre a dificuldade de comunicação, tema tão caro no mundo atual. Foi uma quebra com relação à sonoridade dos lançamentos anteriores da banda. Enquanto os dois primeiros têm os pés fincados no alt country, o terceiro  “SummerTeeth” – envereda pelos anos sessenta em pops perfeitos.

Em YHF, estranhamento é a palavra de ordem. Enquanto as canções têm por tema à incomunicabilidade dos relacionamentos, as músicas são recheadas de ruídos e microfonias ilustrando o mesmo efeito no desenvolvimento das melodias.

E assim começa a primeira canção, I am trying to break your heart. Entre ruídos, sons esparsos e um violão conduzindo a melodia, Jeff Tweedy – com a voz ébria, cansada – canta uma letra dolorida, em que se assume bêbado.

De certa forma, as canções são condicionadas pelo discurso “chapado” em que pensamentos e fragmentos são expostos em meio à lentidão e melancolia.

A segunda, Kamera, é mais pop, relembrando o disco anterior, mas possui discurso igualmente soturno. Um homem dirigindo em meio à escuridão, caminhando em uma guerra de memórias distorcidas, apela: “phone my family, tell them i’m lost on the sidewalk” e complementa: “no, it’s not ok”.

Radio Cure foi a primeira canção do álbum pela qual me apaixonei. É climática e retoma o estranhamento, com um violão dedilhado e uma letra declamada com voz entediada. A faixa possui efeitos que “sujam” a canção e enriquecem o discurso – aparentemente de um amante que não vê a correspondência de seu amor da forma que gostaria e, com a mente cheia e confusa, vê-se cada vez mais distante da pessoa amada.

O refrão, primeiro sussurrado, depois mais intenso, num desafi(n)o quase gritado, arrebata: “distance has no way of making love understandable”.

War on war aparece com bons violões conduzindo e um teclado “animadinho” contrapondo-se à interpretação de Tweedy e à letra que crava certeira: “you have to lose, you have to learn how to die, if you wanna wanna be alive”.

Jesus, etc, um dos hits do álbum, é daquelas pérolas pop perfeitas, com tudo no lugar: o cravo, violino e uma letra repleta de imagens belas e melancólicas.

Ashes of american flags é o ponto alto, aonde a livre associação de ideias atinge o ápice, emocionando até nos versos aparentemente indecifráveis. Contém também o que poderia ser uma síntese do que seria a arte (a menos para mim): “I wonder why we listen to poets when nobody gives a fuck”.

Heavy metal drummer, o outro hit, é uma viagem ao passado de ensaios chapados na adolescência, tocando covers do Kiss. Insere-se no eixo temático do álbum ao resgatar o sentimento de evasão tipicamente romântico de se refugiar nos prazeres do passado para não pensar nos tormentos da vida presente.

I’m the man who loves you é uma desajeitada tentativa de declaração de amor. O eu-lírico, reconhecendo sua incapacidade de verbalizar o que sente, desejava poder segurar as mãos de sua garota e que, com isso, ela pudesse saber seus sentimentos.

A seguinte, Pot kettle back mantém o discurso da incomunicabilidade nos relacionamentos. Aqui, o receptor é confuso, absorto em si mesmo, e o emissor deseja uma varinha mágica, pois “cada momento chega um pouco tarde demais”. No entanto, reconhece que também possui uma parcela de culpa, afinal: “Myself have found a real rival in myself”.

E chegamos às duas peças melancólicas que encerram Yankee Hotel Foxtrot: Poor places retrata um sujeito sentindo-se oprimido, fechado em um lugar quente, precisando sair e encontrar alguém.

Há também o sentimento egoísta de indiferença tão corriqueiro atualmente: “they cried all over overseas and it makes no difference to me”. E, em meio a microfonias, a faixa encerra com uma voz feminina repetindo o nome do álbum como um código de rádio.

O disco chega ao final com a belíssima Reservations, dos acachapantes versos iniciais: “how can I convince you it’s me I don’t like. not be so indifferent to the look in your eyes”. Nesta faixa, o mesmo tipo de voz que atravessa todo o álbum de forma angustiada, sem saber como chegar ao outro, declara: “I’ve got reservations about so many things, but not about you”.

E, de forma serena, encerra-se um dos grandes discos da minha vida. Que conheci na época da faculdade quando trabalhava à noite em uma biblioteca pouco frequentada no meu horário. Então ouvia sem parar e sentia que aqueles sons, aquelas palavras expressavam muito das minhas dúvidas, indefinições de então quanto ao futuro.

E, tanto tempo depois, sinto que estas onze canções continuam a reverberar com a mesma intensidade por aqui e tenho certeza que assim permanecerão, acompanhando meus passos como ondas de rádio oriundas de uma estação de (des)inteligência emocional.

Wilco – Yankee Hotel Foxtrot

Ouça o disco

  1. I am trying to break your heart
  2. Kamera
  3. Radio Cure
  4. War on war
  5. Jesus, etc
  6. Ashes of american flags
  7. Heavy metal drummer
  8. I’m the man who loves you
  9. Pot kettle back
  10. Poor places
  11. Reservations
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